Nicki, Marina e os perigos do alter-ego
POR Pedro W. EM 09/05/2012
Na seara psicanalítica, o alter-ego é encarado como uma forma inconsciente de um outro ‘eu’ que habita nossas mentes, personagem de nossa existência que, no fundo, existe sem pedir permissão a nós, roteiristas de nossas próprias vidas. Mas, se você é uma estrela pop, com certeza encara o alter-ego de forma bem consciente e tem obrigação de estar por dentro dos perigos que esta consciência pode trazer a sua carreira.
Criar um novo personagem como forma de externalizar facetas de sua própria personalidade jamais foi a real intenção de qualquer nome da música pop. Basta lembrarmos de Sasha Fierce e Jo Calderone, duas bobagens criadas, respectivamente, por Beyoncé e Lady Gaga, que muito mais serviram como motivo de deboche do que como mecanismo criativo.
O papel do alter-ego dentro da logística da Poplândia só toma caráter de eficiência e utilidade quando não é subserviente à indústria. Fora isso, torna-se esquizoide e deslocado. Em outras palavras, é ‘forçação de barra’. E, curiosamente, alter-egos raivosos, apenas estes, têm obtido êxito em suas cruzadas. Pois, após Slim Shady, de Eminem, acompanhamos Roman Zolanski, personagem criado por Nicki Minaj como ferramenta para transformar em melodias seus momentos de fúria.
E, tanto em Pink Friday, seu álbum de estreia, como em Pink Friday: Roman Reloaded, Nicki foi bem-sucedida. Principalmente, em sua segunda jornada, em que é explícita a jogada de mestre: Roman toma a pele de Nicki nos momentos de caos que permeiam a primeira metade do disco, enquanto Nicki, a rapper comercial, dá conta do restante, com hits radiofônicos competentes. Uma estratégia de sucesso apoiada em uma bengala que geralmente quebra. Roman Zolanski é a desculpa perfeita para os lampejos de caos e experimentações de Minaj. Um alter-ego a serviço da subversão. Basta compararmos, por exemplo, I Am Your Leader, sob a bênção de Roman, com Right By My Side, balada com participação de Chris Brown ao lado de… Nicki.
Nicki Minaj – I Am Your Leader (Feat. Cam’ron & Rick Ross)
Nicki Minaj – Right By My Side (Feat. Chris Brown)
Já em viés de baixa, surge uma tal de Electra Heart que, sinceramente, nasceu para embaçar o caminho de Marina Diamandis, ou melhor, Marina and The Diamonds, que, após uma estreia de luxo e promissora, com o pop sofisticado e elegante do álbum The Family Jewels, deu à luz, em 2012, um álbum amorfo, amparado pela muleta de uma personagem deslumbrada por Hollywood, a tal Electra. Resultado? O comum, o esquecível, o qualquer-coisa.
Parece que Marina incorporou tanto seu alter-ego que acabou se rendendo às delícias da indústria, mantendo apenas vivo seu vocal delicioso, em meio a faixas que não dizem a que vêm, com exceção de Primadonna e Homewrecker (que vazaram bem antes do álbum) + Power and Control e Valley of The Dolls (que se salvam pela aura soturna, remetendo levemente ao primeiro disco). Ah, claro, para completar a lambança, Radioactive, excelente faixa que inaugurou a nova fase de Marina (nos iludindo) e prometia estar presente no álbum, ficou de fora da tracklist oficial, apenas incluída na versão deluxe de Electra Heart.
Marina and The Diamonds – Power & Control
Marina and The Diamonds – Valley of the Dolls
Electra Heart foi inventada com qual propósito? Esta é a pergunta que fica no ar depois da trapalhada de Marina, que poderia continuar sua saga pelo pop, dando as mãos ao mainstream, sem emplacar a gestação de um alter-ego dispensável que somente serviu para diluir qualquer resquício de suas particularidades tão interessantes, vistas no primeiro CD.
Fica uma lição pelo caminho: se você é uma estrela pop, só deixe nascer um alter-ego se este for um exorcismo de seus demônios ou uma tentativa de iludir as regras da Poplândia. Se não for este o caso, aproveite que, na música, o aborto é integralmente legal e dê cabo desta ideia.






